30/10/2010

O Justiceiro #4: No Rastro da Caveira - Final

O lugar de escape para Frank e Dave não estava muito longe. Era uma velha oficina uns dois bairros a frente da Cozinha. As balas no ombro e na perna faziam sangrar e doer. O ar estava pesado, era como se o mundo estivesse em seus ombros. A vida é dura, e ele tratou de deixá-la ainda mais densa.

Percebendo agora, tudo parecia ter acontecido rápido demais. O retorno para Nova Iorque, a busca por uma vida justa trabalhando na oficina, e depois o despertar para a punição do crime. Não saberia contar como tudo de fato começou, e a história era longa demais, embora conseguisse vislumbrar tudo num piscar de olhos. Frank não estava em paz.

Depois de passar pelas docas, atravessou outro quarteirão sombrio, e no final dele estava a oficina. O lugar onde trabalhou por uns tempos, quando a palavra trabalho fazia algum sentido.

- É ali.

- Ali? Uma oficina? Cara... Que merda. – Disse Dave, que reclamou por todo o trajeto. – Cara, você precisa de um médico. Não dá pra ficar assim, tu vai morrer!

- Não vou.

- Tu é mais teimoso que uma porta! Eu sei que você se acha o mestre do Kung-fu três vezes, mas cara, essas coisas de herói que não morre só acontece nos filmes...

- Não sou. Não... Não sou nenhuma porcaria de herói. – Então Frank apagou.

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O Justiceiro #4
No Rastro da Caveira – Final

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Os olhos abriram lentamente. Havia uma luz muito forte, tão forte que mal sabia se era do sol, ou qualquer outra coisa. Mas certo era que havia muita luz. Levantou devagar, o corpo tão leve quanto o vento, e ventava ligeiro. Frank se viu menino em um campo de vinhedo.

Aos poucos, a luz forte foi perdendo o poder, e foi possível ver os trabalhadores do campo. Homens e mulheres com cestos nas mãos, cortando e catando os cachos de uva. Falavam uma língua estranha, e cantavam canções. Aquilo parecia ser felicidade. O menino correu vinhedo adentro.

- Franscesco! Franscesco! – Uma voz feminina, forte, porém doce ecoou por todo o céu. Era uma mulher de cabelos negros e pele de seda, uma bela mulher segurando um cesto apoiado na cintura.
O nome era diferente, mas sabia que tratava de si mesmo. O menino correu com um sorriso no rosto. Correu para abraçá-la, porém, subitamente o céu se desfez e o que era luz se apagou. O vinhedo apodreceu repentinamente, e todos os trabalhadores caíram no chão com o aspecto de cadáveres de longos dias, com vermes por toda a carne.

A bela mulher tinha vários ferimentos pelo tronco, e dela jorravam rios de sangue que encharcaram o menino. Todo o campo virou enchente de sangue, e gigantes de terno e chapéu apareceram por toda a parte. O menino desceu ao sangue e ao voltar à superfície já era velho, homem formado. Tinha duas armas nas mãos e atirava contra todos os gigantes, e à medida que os feria, ficavam menores.

Então, um inimigo igual o alcançou e atirou contra sua face. O disparo fez Frank acordar.

Ao abrir os olhos percebeu que era um pesadelo. Estava recostado em uma poltrona velha dentro da oficina, molhado de suor e com a respiração ofegante. Por alguns segundos perdera a noção de espaço, certa confusão ainda o afligia devido ao estranho pesadelo. Até que as coisas voltaram para o lugar.

- Sonhos ruins. Acontece. – Uma voz saiu por detrás da poltrona. Frank tentou se virar, o ferimento doía. Não pôde ver quem era. – Serei claro...

Certamente não era Dave. Aquela era mais carregada. A figura misteriosa se revelou, caminhando até diante de Frank. O homem de barba bem feita, óculos escuros e cabelo de gel começou a falar:

- Eu sou um profissional, e esta questão já está atrasada. Não mato por prazer, faço por dinheiro. Facilite meu trabalho e terás vantagens adicionais. Antes de começar este negócio, deixo algumas regras que devem ser seguidas religiosamente...

- Q-quem... Quem é... – Frank tentou perguntar, mas foi interrompido pelo profissional, que elevou o tom da voz para se afirmar.

- Como eu dizia... Deixo algumas regras que devem ser seguidas religiosamente, ou metodicamente, tanto faz. Número um: Eu pergunto, você responde e nada mais que isto. Número dois: Não grite, você não precisa desta humilhação. E finalmente...

- Mas que merd...

- E finalmente... – Cortou a fala de Frank novamente elevando a voz. – Não tente fugir, eu nunca erro um alvo. Seja perto, aqui ou acolá. Apenas colabore.

O sujeito usava um sobretudo preto, cachecol, e botas de couro devidamente enceradas. Pelo cheiro de outono que exalava, parecia ser alguém extremamente vaidoso. Retirou uma pistola e enroscou o silenciador. Apontou para Frank, e perguntou:

- Onde está o garoto?

Frank passou a língua pelos dentes superiores e arrastou pela gengiva. Estava pegajosa. A garganta nunca esteve tão seca.
- Preciso de água.

O profissional respirou fundo. Logo percebeu o tipo de Frank.

- Então vai ser desta maneira? – Ficou estático por alguns segundos, e logo concluiu com um suspiro. – Ótimo. Mas que fique bem claro, odeio tortura. Nada pessoal, apenas negócios, como já disse.

Dito isto, deu uma coronhada na cabeça de Frank, que apagou novamente.

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Nas ruas onde aconteceu o tiroteio, agora cheia policiais, John Laviano fazia algumas perguntas.

- O filho da mãe chegou aqui e sentou a mão em todo mundo. – Disse uma testemunha.

- Quem?

- Esse cara que mora aí em frente. E detalhe: só com um telefone.

- Um telefone?

- É rapaz, to falando... O sujeito é sinistro.

- Sozinho?

- Não... Tava mais um garoto... Um garoto de terno, com uma maleta cheia de bíblias.

- Certo. Obrigado. Qualquer coisa, a gente entra em contato.

Laviano não estava entendendo. Frank não parecia ser do tipo que causava confusões, pelo menos era o que pensava.

Um dos oficiais no local se aproximou.

- Então, é ele mesmo? Aquele seu amigo...

John se irritou com a pergunta. Aliás, já estava extremamente estressado com sua situação.

- Vê se não enche. Tem mais nada o que fazer não?

O policial saiu aborrecido.

Pensando onde Frank poderia estar, Laviano se lembrou da velha oficina que Frank trabalhou por uns tempos. Aquele seria o único lugar distante e seguro o bastante para ele se recuperar. John resolveu ir sozinho, precisava entender o que estava acontecendo.

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Ao abrir os olhos, a primeira imagem era a cara suada e com medo de Dave. O profissional o agarrava pelo cabelo, apenas esperando que Frank abrisse os olhos.

- Olha o que eu achei! O garoto tinha se escondido bem.

Aconteceu que vinte minutos atrás, ao perceber a chegada do assassino, Dave se escondeu no armário de ferramentas, deixando Frank sozinho. Mas o assassino o encontrou enquanto Frank estava desmaiado.

Jogou Dave em uma cadeira qualquer, sinalizando para que não se movesse, e voltou-se para Frank, que ainda estava atordoado com o golpe na cabeça. O assassino não havia atado Frank, mas o próprio corpo já o deixava imobilizado. Perdera muito sangue no caminho até a oficina e estava debilitado. Impossível reagir com a destreza necessária para deter um profissional.

- V-você... Você era o sniper. – Disse Frank.

O profissional sorriu.

- Eu já fui muitas coisas, mas isto demonstra muito de você. Grande percepção. Sim, era eu, não podia deixar um marginal qualquer matar o meu alvo. Mas como eu disse, nosso jogo tem regras. Antes de voltar aos negócios, uma dúvida: por que o garoto?

- Por que o quê?

- Deixa pra lá, não tenho tempo pra isso.

Apontou a arma para Dave e atirou duas vezes. O garoto caiu no chão agonizando. Frank ficou em silêncio, mas havia fúria em seus olhos. O ar debochado e sínico do assassino deu lugar para um semblante concentrado. Ele iria começar o interrogatório.

- Veja bem, eu não sou pago para isso. Este é um trabalho experimental. Sabe como sou conhecido? Sabe?

Esperou uma resposta de Frank, que permaneceu estático, apenas fitando-o.

- Me chamam de Deadshot. Para mim, é só um nome profissional. Mas para eles... É como uma garantia, uma garantia que o dinheiro foi bem pago, pois eu nunca erro. Sou um matador a longa distância. Entretanto, desta vez eles me pagaram para pegar você. Pelo que disseram, você causou muitas baixas nas últimas semanas. – Deadshot dizia calmamente.

- Precisamente, 23 caras foram aniquilados em três meses. Todos homens de confiança do crime organizado. Para ser ainda mais preciso, guarda-costas. Vinte e três gigantes, se me permite dizer. Sem motivações, eles suspeitam que você seja de alguma família esquecida pela máfia. Mas não creio. Estive te observando, você é apenas um lobo solitário. Vive em um apartamento do subúrbio. Mas por alguma razão, resolveu matar. Somos parecidos até. Dois pontos extremos da mesma reta. Eu sei bem o que me fez chegar aqui, o que deu errado. Mas a pergunta é: O que diabos deu errado com você?

Frank se demorou na resposta.

- Foda-se! – Disse secamente.

Frank se lançou repentinamente sobre o assassino, buscando forças que não tinha. Não se tratava de um golpe, mas um ato impensado de usar o próprio peso como arma, surpreendendo Deadshot. No reflexo, o inimigo atirou acertando a barriga de Frank.

Ainda no impulso, Frank agarrou o colarinho do sujeito e se lançou ao chão, trazendo junto o inimigo. Na queda, a arma escorregou. Não que Frank fosse forte o bastante, mas a surpresa que havia desarmado o inimigo.

Não havia técnica, nem nada elaborado. Eram dois animais lutando pela sobrevivência. Frank agarrado ao pescoço de Deadshot, e este socando onde o punho alcançava, do rosto ao tronco.

Em meio à adrenalina e fúria, Frank achou uma brecha e socou a região do olho direito de Deadshot. Diversas vezes. Quando socar tornou-se difícil, pois o oponente também revidava, empurrou o globo ocular direito com o polegar, o sangue espirrou.

Até que Deadshot encontrou a ferida de bala, e a apertou. Frank urrou de dor, até perder as forças e cair para lado. Rapidamente, Deadshot se levantou confuso e com o campo de visão embaçado pelo olho direito destruído. Praguejou procurando a arma, mas não enxergava nada.

Cobriu o olho ferido com as mãos para que pudesse enxergar com o esquerdo. Finalmente pode ver onde estava sua arma: nas mãos de Dave Sparks. As balas de Deadshot não foram capaz de matar o garoto.

- Eu... Eu falhei! Impossível! – Disse ao ver Dave vivo.

- Vai precisar de muito mais pra me matar... filho da puta! – Gritou descarregando a arma em Deadshot que caiu no chão. Dave largou a arma, respirou com dificuldade, e finalmente apagou.

Estava acabado.

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Frank Castle acordou no hospital, dias depois. Diante dele estava John Laviano, que o encarava com uma expressão estranha.

Não parecia um amigo, não como costumava ser. Estava apenas parado ali, sem dizer nada. Os fatos comunicavam por si só.

Dave também tinha sobrevivido, e provavelmente já tinha contado tudo ao detetive. Frank supôs. Mas Laviano não fez nenhuma pergunta, apenas acompanhou a recuperação de Frank. Era perceptível, o julgamento em seu olhar. De alguma forma, ele sabia.

Antes de deixá-lo, apertou o braço de Frank solidariamente.

- Foi justiça! – Disse Frank em resposta, enquanto uma lágrima escorria. – Foi sim!

Laviano balançou a cabeça positivamente e deixou o local. Os policiais no distrito nunca deram ouvido à história de John sobre o Justiceiro da Cozinha do Inferno. Depois de um tempo, John preferiu esquecer aquilo e deixar que o jogo alcançasse seu próprio equilíbrio.

O tempo tratou de conformar John.

Quando o Justiceiro, tempos depois, passou a assustar as ruas marginais com seu rastro de sangue, todos os policiais faziam vistas grossas. Aquele homem deixava o trabalho mais fácil. Nenhum policial precisaria morrer nas mãos de bandidos.

Onde houvesse um criminoso impune, o Justiceiro estaria ali. Se não ele, a sua lenda para equilibrar o jogo. Para dizer que a punição estava vindo armada até os dentes.

Quanto ao Deadshot não se sabe ao certo o que houve. Os enfermeiros disseram que já chegou morto ao pronto socorro, e que o corpo fora transferido para Belle Reve.

Este foi o início de Frank Castle como Justiceiro. O seu passado permanece incógnito.

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Fim
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O Justiceiro
No Rastro Da Caveira,
Minissérie em 4 Edições.
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6 comentários:

Caraleo!!!
Um final fodástico para uma das melhores versões do Justiceiro que eu já vi!
Essa luta do Frank e do Deadshot ficou sensacional, sem dever nada para filmes de diretores como o Tarantino, ou mesmo às histórias do Ennis na Marvel original.
Achei demais também o lance com o Laviano e a polícia, uma atitude que faz muito sentido num caso como esse!
Meus sangrentos parabéns!!
Um abração e até mais!!

Opa João,

Fico mesmo muito feliz e satisfeito por ter gostado desse Justiceiro meu aí... hehehe. Sou fã do Tarantino, e fico honrado com a comparação. Pows, valeu mesmo.

O lance do Laviano foi uma forma que achei para explicar pq a polícia nao persegue o Justiceiro.

Meus sangrentos agradecimentos!

E que venha o cross que estamos planejando...

Um forte abraço!

Muito bom, Ocelot!!!! Muito bom mesmo... Agora,a pergunta: porque Deadshot e não Pistoleiro? E cara, você cegou o olho direito dele, vai ficar parecido com o Exterminador...eheheh

Só troquei o nome por uma questão estética. Deadshot é muito mais legal que Pistoleiro. Coisa minha, hehehe

E quanto ao olho do sujeito: Não esquenta que ta tudo premeditado. Não vou deixá-lo igual ao Exterminador. Quem disse que ele vai ficar cego? Só tá com o olho fudido. Tudo pode acontecer. Hahahahahahha

Que bom que curtiu, Raven.

Valeu pelo comentário. Forte abraço.

concordo, concordo. esse justiceiro sim que merece destaque. cada linha, uma sensação. parabéns, menino renan. transforma essa mini em pdf e manda pra galera!!!

Muito obrigado Caldeira, valeu pelo comentário!

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